Um dos profissionais da linha de frente da covid-19, tanto na prática médica quanto no planejamento público, o médico infectologista David Uip é um defensor do Sistema Único de Saúde, mas questiona a gestão do sistema e a destinação dos recursos públicos.
Uip foi o coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus do governo paulista e, agora, está à frente da Secretaria Extraordinária de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde do estado de São Paulo. O órgão estadual criado com objetivo de se tornar um formulador de políticas e estratégicas de longo prazo para o campo da saúde.
Em entrevista ao Correio, o infectologista falou sobre suas expectativas de mudança no financiamento do sistema público de saúde. Também falou sobre a pressão que sofreu, como coordenador do Centro de Contingência, quando foi contaminado pela covid e teve sua receita médica vazada na internet.
O SUS funciona?
Mesmo com deficiências, especialmente no cuidado básico à saúde e longe dos grandes centros, e com os crônicos problemas de financiamento e gestão do sistema, apesar dos problemas, existe um SUS que funciona, e muito bem. As pesquisas realizadas com usuários do SUS em São Paulo demonstram que a maioria da população aprova o sistema, apesar das filas e das dificuldades no acesso a determinadas especialidades. A capacidade de resposta do SUS foi fundamental no período da pandemia e, quando o governador (de São Paulo na época, João Doria) me chamou para integrar o Centro de Contingência, o estado tinha 3,5 mil leitos de UTI. Para covid, chegamos a quase 15 mil leitos.
Diferentemente de outros países, São Paulo não ruiu. Veja Nova York (nos Estados Unidos), muito mais rica, mas, com um sistema de saúde diferente, ruiu. Aqui, não. O SUS é um dos melhores e mais capilarizados serviços de atendimento público do mundo. No consultório, como médico particular, atendi mais de 2,5 mil casos de covid. De todos os pacientes, perdi 54 para a doença e sofro por cada perda, mesmo após 47 anos de formado. Cada morte sempre é um sofrimento, eu faço o que eu posso para lidar com isso.
Como melhorar o SUS?
O SUS precisa ser repaginado, tem que melhorar o financiamento, talvez mudar a forma como é realizado esse financiamento, precisamos discutir e começar a fazer melhor uso dos recursos com gestão. Quem faz as cirurgias de alta complexidade é o SUS, as cirurgias cardíacas é o SUS. Existe uma grande competência na alta complexidade, assim como existe uma grande competência do SUS no Programa Nacional de Imunização.
Como pode ser essa gestão do SUS, o sistema é viável?
Eu sou absolutamente a favor do SUS, mas precisamos falar das diferentes formas de gestão do sistema. No estado de São Paulo temos várias delas. Temos a administração direta, onde há uma dificuldade enorme para se fazer concursos públicos, para se fazer compras, e para se demitir. O problema não é a administração direta, o problema é que temos que modernizar a legislação que rege a administração direta. A segunda forma é por meio de organizações sociais, o que vejo como um avanço. O que precisamos é de um bom controle da economicidade, da qualidade e da seriedade na gestão. Estou propondo aqui para o governador a criação de uma agência regulatória para as organizações sociais.
Veja, por exemplo: o Sírio Libanês é uma organização social modelo, que faz a gestão de alguns hospitais públicos, isso melhora a forma de gestão e principalmente a agilidade. Temos uma forma de gestão, a usada no Hospital das Clínicas de São Paulo, que é uma autarquia especial, que responde pelo seu próprio orçamento. Uma outra forma é das fundações de apoio, como vemos em diversos hospitais. Essas são diferentes formas de gestão do SUS, e não entendo nenhuma delas como privatização do sistema.
O SUS remunera corretamente?
A remuneração da tabela SUS é um problema, mas, talvez, a gente tenha que remunerar por desfecho em vez da tabela. Desfecho é o que realmente custa, você remunera pela média do custo de um tratamento para uma doença específica. Só aumentar a tabela SUS ajuda, mas não resolve todo o problema de financiamento. Por exemplo: o leito de uma UTI era remunerado, antes da pandemia, na tabela, por R$ 600. Isso ajudou a quebrar as Santas Casas. Com a pandemia, o valor da UTI subiu para R$ 1,6 mil, ainda abaixo do custo, mas, agora, pela proposta orçamentária do próximo ano, o orçamento da saúde, de R$ 200 bilhões, deve voltar ao valor anterior, R$ 130 bilhões, assim como a tabela SUS. Isso é problemático.
A prevenção não é o melhor remédio?
Nós precisamos evoluir muito na prevenção. Quanto mais investirmos na base, na prevenção da diabetes, do câncer, entre outros, menos pacientes teremos em atendimentos caros de alta complexidade. Mas é difícil você falar em prevenção quando metade dos brasileiros não tem esgoto e água tratada, é difícil você falar em prevenção quando o número de vacinados no Brasil cai a cada ano. É todo um conceito de como você pensa a saúde.
Por Correio Braziliense




