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Tratamentos como imunoterapia e farmacologia mostram precisão no combate ao câncer

Baseados em informações genéticas e moleculares de cada paciente, tratamentos como a imunoterapia e a farmacologia dirigida pavimentam um novo patamar em abordagens antitumorais. O alto custo das abordagens, porém, é um empecilho

REDAÇÃO BRASIL 060 por REDAÇÃO BRASIL 060
31/10/2022 | 23:29
em Destaque, Notícias, Saúde
Tratamentos como imunoterapia e farmacologia mostram precisão no combate ao câncer
(crédito: Cortesia da University College H)

Mendoza (Argentina) e Brasília — Uma peça de roupa sob medida segue o formato do corpo do cliente, sem folgas ou apertos. Considerando mais variáveis, a medicina personalizada também busca produtos e serviços que se encaixem nas condições de cada paciente. Nessa costura pela saúde, os processos genéticos e moleculares são informações estratégicas, exploradas por profissionais variados, de cardiologistas e pediatras a psicólogos e nutricionistas. No caso da oncologia, essa abordagem de precisão é tida como um novo patamar na luta contra o câncer, mas com obstáculos a serem vencidos, como o acesso pouco igualitário às inovações disponíveis.

“É o futuro da oncologia. Estamos caminhando para isso. A quimioterapia ainda tem um papel muito importante para várias doenças, mas, certamente, mudamos o tratamento de muitos tumores com a medicina de precisão”, diz a oncologista Maria Ignez Braghiroli, uma das diretoras da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). A médica cita como exemplo o câncer de pulmão. Segundo ela, cada vez mais alterações são descobertas e se tornam alvo de terapias específicas para os diferentes tipos desse tumor, o mais incidente no mundo. “A gente evoluiu muito. Antes, tratávamos todo mundo com terapia igual. Na medida que fomos fazendo análises moleculares, foram surgindo melhores abordagens”, diz.

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Gonzalo Recondo, coordenador da Unidade de Oncologia Torácica e Medicina de Precisão do Centro de Educação Médica e Investigações Clínicas (Cemic), na Argentina, conta que há 10 biomarcadores do câncer de pulmão — proteínas, genes e outras moléculas indicativos da doença — cujas terapias específicas têm uso aprovado pelo FDA, a agência de vigilância estadunidense. Elas abarcam cerca de 45% dos pacientes e têm gerado efeitos significativos. “Há oito anos, quando essas pessoas só podiam ser tratadas com químio, a expectativa de vida era de um ano. Hoje, com a imunoterapia, esse tempo pode duplicar. Com a farmacologia dirigida, sobe para cinco, seis, sete anos”, detalha.

A imunoterapia e a farmacologia dirigida são as abordagens mais utilizadas na medicina de precisão (veja arte). O pesquisador em oncologia Vinicius de Lima Vazquez explica que, no primeiro tratamento, as principais drogas disponíveis ativam a imunidade do paciente para que ela destrua os tumores. No segundo, também chamado de terapia alvo, o foco é uma alteração associada a determinado tumor identificada em uma via molecular.

“Por exemplo, tem um gene chamado BRAF que produz uma proteína que, em excesso, faz as células se reproduzirem sem parar. Se bloqueamos a via do BRAF, podemos ter uma regressão do tumor”, explica Vazquez. O também diretor do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Amor, o antigo Hospital de Câncer de Barretos, em São Paulo, é um dos coordenadores de um estudo científico recente que descobriu uma molécula com potencial para ser um alvo terapêutico contra o melanoma.

Qualidade de vida

De uma forma geral, a medicina de precisão é associada a uma queda de 53% no risco de progressão de tumores, segundo Julieta D’Annunzio, diretora médica de câncer colorretal e melanoma da Pfizer para mercados emergentes. “São possibilidades de impactar na qualidade de vida dos pacientes por meio do melhor tratamento possível, que é aquele sustentado por base científica, que justifica a sua efetividade”, afirma.

Outra vantagem constatada pelas pesquisas é a redução na toxicidade dos tratamentos, o que pode influenciar, por exemplo, nos efeitos colaterais. Lima Vazquez explica que a quimioterapia convencional é tóxica para todas as células do paciente, e mais ainda para as tumorais. Com a medicina de precisão, esses danos podem ser reduzidos. “Como a abordagem é específica para determinada mutação, age direto naquele ‘defeito’ do paciente, ela consegue ser mais assertiva e efetiva para os outros tecidos e para o bem-estar do paciente de uma forma geral”, compara Adriana Ribeiro, diretora médica da Pfizer Brasil.

Não curativa

A maioria dos tratamentos disponíveis, porém, é voltada para os casos mais avançados de cânceres e tem um efeito de controle da doença, contextualiza Ignez Braghiroli. Segundo a médica, a cirurgia segue sendo a intervenção mais eficaz quando se fala em extinguir a doença.”Geralmente, o que a gente precisa fazer para aumentar as chances de cura são combinações. Então, juntamos cirurgia com quimioterapia, cirurgia com medicina de precisão, como a terapia alvo”, diz. “Nos casos de metástase, temos muitas terapias alvo. A maioria delas é para doenças avançadas, inclusive, mas não com intuito de cura, mas de controle. E isso pode durar muito tempo, por anos.”

Essa administração de longo prazo implica em alto investimento. Uma dose de uma droga alvo pode custar mais de R$ 50 mil, os testes que indicam a ocorrência da condição genética, R$ 10 mil. “Tudo o que envolve alta tecnologia é mais caro. Então, é pouco inclusivo. Há uma variedade de terapias de última geração disponíveis apenas para quem pode pagar”, observa Lima Vazquez. Segundo o médico, o valor oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para um tratamento oncológico não cobre 20% de uma terapia com drogas avançadas aprovadas pela Anvisa.

Ignez Braghiroli, que trabalha nos sistemas público e privado de saúde, convive diariamente com essa disparidade no acesso a tratamentos. Na opinião da médica, é necessária uma discussão grande sobre os custos e as prioridades em tratamentos oncológicos de precisão. “Não vai dar para oferecer tudo para todo mundo. Precisamos, como sociedade, avaliar benefícios, onde o impacto é maior, para definir o que é melhor. É assim que fazem nos países europeus”, indica. “E podemos fazer uma discussão mais adiante. Temos que focar nisso ou em prevenção e educação? É um debate complexo, mas ninguém, nem nós nem o resto do mundo, vai conseguir fugir dele.”

*A jornalista viajou a convite da Pfizer

Por Correio Braziliense

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