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Home Saúde

Por que (e como) elas decidiram ingerir a própria placenta

REDAÇÃO BRASIL 060 por REDAÇÃO BRASIL 060
05/06/2017 | 16:39
em Saúde
Por que (e como) elas decidiram ingerir a própria placenta

Mesmo sem comprovação científica de benefícios, tornou-se comum a opção de mães pelo consumo do órgão – em cápsulas, para quem não quer fazê-lo ‘in natura’

Placenta na bandeja para ser manipulada

<span>A doula Pamella Souza e a enfermeira obstétrica Raquel Carvalho, que trabalham com manipulação da placenta para produzir cápsulas, tintura, pomadas, óleos e até mesmo telas de aquarela </span>

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Cápsulas de planceta

Com a promessa de aliviar sintomas de depressão pós-parto, aumentar a produção de leite, combater a fadiga e repor nutrientes perdidos durante a gestação, transformar a placenta em cápsulas está se tornando uma alternativa cada vez mais comum entre mulheres que querem comer o órgão após o parto, mas não tinham coragem de ingeri-la in natura, geralmente em forma de vitamina batida com banana ou açaí, assim como fez a apresentadora e chef de cozinha Bela Gil, no ano passado.

O ato de ingerir a placenta – chamado de placentofagia – já existe há alguns anos e é mais comum nos Estados Unidos, onde a cada dia está está mais popular. No ano passado, a socialite americana Kim Kardashian anunciou que comeria a própria placenta depois de dar à luz Saint West, seu segundo filho. Antes dela, as atrizes Holly Madison, January Jones e Mayim Bialik haviam feito o mesmo.

No Brasil, a prática ainda é pouco difundida e ainda causa estranheza na maioria das pessoas. Há cerca de dois anos, no entanto, o encapsulamento da placenta tem se tornado uma alternativa para mulheres que, mesmo sabendo que não existe comprovação científica dos supostos benefícios da ingestão da placenta, acreditam que ela carrega, sim, um alto teor nutritivo (possui ferro, vitamina B6 e B12) e pode ser fundamental para um puerpério tranquilo.

Cápsulas de placenta

Em pouco mais de um ano trabalhando oficialmente com encapsulamento de placentas, a doula Pamella Souza e a obstetriz Raquel Carvalho já atenderam 110 mulheres – 37 só neste ano. As duas fizeram um curso de imersão em medicina placentária com uma chilena especialista no assunto. Desde janeiro do ano passado, elas trabalham com manipulação da placenta para produzir cápsulas, tintura, pomadas, óleos e até mesmo telas de aquarela com base no “carimbo” feito com a placenta antes de ser triturada.

Segundo Pamella, para encapsular a placenta o órgão precisa ser desidratado por algumas horas e depois triturado. Para que o processo funcione sem riscos de contaminação e perda dos nutrientes, a placenta deve ser congelada em até cinco horas após o parto. Ao ser entregue para manipulação, Pamella escorre a quantidade excedente de sangue, depois corta a placenta em pequenos pedaços. Em seguida, coloca em uma máquina para desidratar e, por fim, a tritura antes de colocar nas cápsulas. Cada placenta rende de 80 a 120 cápsulas, em média.

A vantagem do encapsulamento, explica Pamella, é que a mulher pode consumir a placenta por mais tempo (desidratada ela tem validade de dois anos), além de ter maior discrição no consumo. “Algumas mulheres não comem carne crua de jeito nenhum, nem mesmo de peixe. Não comeriam a placenta, que não tem um aspecto apetitoso. Mas, quando ela vira pó e é encapsulada, ela perde o cheiro e o aspecto ruim desaparece. A mulher consome como se fosse um comprimido de vitamina”, diz.

A doula Iara Silveira também trabalha com o encapsulamento de placentas há quatro anos. Além de Brasília, onde ela fica, Iara já treinou pessoas em Florianópolis, São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro para fazer o encapsulamento. Só em Brasília ela atende de dez a quinze pedidos por mês. Ela também percebeu uma maior aceitação das gestantes em consumir a placenta em forma de cápsulas. “As cápsulas representam uma forma discreta de usufruir dos benefícios da placenta no pós-parto, de maneira mais contínua”, diz.

Efeitos positivos

A arquiteta e doula Aline França, de 34 anos, tem duas filhas e decidiu transformar sua placenta em cápsulas após o parto da segunda filha, Isabel, que nasceu em casa, em um parto natural. “Meu primeiro parto foi uma cesárea e acabamos jogando fora a placenta. Mas na segunda gravidez eu li muito e fazer as cápsulas de placenta pareceu ser a alternativa mais razoável. Eu não me via comendo um pedaço da placenta ou batendo com alguma fruta”, afirmou.

Aline seguiu todas as orientações sobre como preservar a placenta após o parto e pagou 500 reais pelo serviço de encapsulamento – ao todo conseguiu 130 cápsulas. Tomava quatro unidades por dia. “Foi demais. Estava me sentindo um pouco estranha, com muita vontade de chorar, e assim que tomei as cápsulas já senti um efeito que não esperava. A melancolia foi embora, minha disposição cresceu e aumentou muito minha produção de leite. Foi um puerpério bem diferente do meu primeiro.”

A terapeuta floral Julia Pá, de 32 anos, decidiu encapsular a placenta após o parto do primeiro filho, Estevão, que está com dez meses. Ela teve um parto domiciliar, com parteiras, e soube dos supostos benefícios da placenta por meio delas. Não pensou duas vezes. “Optei pelas cápsulas porque poderia tomar por mais tempo, em doses homeopáticas, durante todo o puerpério. Além disso, teria aflição de comer a placenta in natura por se tratar de um pedaço de carne humana”, afirmou.

Julia pagou 400 reais pelo serviço e sua placenta rendeu 130 cápsulas. Por dois meses e meio, ela tomava duas unidades por dia. “Todas as vezes que ia até o congelador tomar a cápsula eu me lembrava do meu parto, me conectava de novo com aquele momento. Minha placenta me fez uma baita companhia nesse momento tão intenso do pós-parto.”

A doula Mari Noronha, de 36 anos, seguiu o mesmo caminho. Mãe de duas crianças, ela consumiu a placenta do segundo filho após pesquisar muito sobre os benefícios do parto natural e começar a trabalhar com isso. Mari teve o bebê em uma maternidade de São Paulo e conta que, na época, saiu do centro obstétrico levando a placenta embrulhada em um saco plástico com ela para o quarto e teve de armazená-la no frigobar antes de mandar para fazer as cápsulas. “Hoje o procedimento mudou e a placenta fica armazenada no centro obstétrico e a família retira depois da alta”.

Segundo Mari, sua placenta rendeu cerca de 200 cápsulas pequenas e ela tomava seis delas por dia. “Comecei a entrar em uma depressão pós-parto e melhorei minha disposição psicológica e física pouco de pois de começar a tomar a placenta. Não existe comprovação científica, mas as pessoas que tomam, assim como eu, acreditam que isso faz sentido”, disse. Entre as gestantes que acompanha, Mari disse que pelo menos 40% decidem mandar fazer as cápsulas.

Faltam estudos

Segundo o ginecologista e obstetra Waldemir Rezende, membro do corpo clínico dos hospitais Samaritano, Albert Einstein e São Luiz, a placenta é um órgão do bebê, pois ela só existe no período da gestação. Ela é rica em ferro, vitamina B12, hormônios (estrógeno e progesterona), entre outros nutrientes. Para ele, as melhorias relatadas após ingestão das cápsulas de placenta podem ser um efeito placebo e, por isso, precisam ser melhor estudadas. “Se pusermos farinha o resultado pode ser o mesmo se a paciente não diferenciar visualmente as cápsulas”, sugere.

Rezende afirma, no entanto, que a ingestão após a desidratação adequada e sem contaminação, não oferece riscos. “Ingerir a placenta in natura, acredito que possa trazer mais benefícios e maior absorção de nutrientes e minerais, principalmente o ferro”, afirmou. A mulher perde de 300 mililitros a 500 mililitros de sangue no parto vaginal e até um litro de sangue na cesárea.

A Universidade de Jena, na Alemanha, tem um grupo estudando os benefícios do consumo de cápsulas de placenta. Os resultados preliminares divulgados nesta semana apontam que a desidratação provoca uma drástica redução de germes e que o vapor seguido da desidratação provoca uma redução das espécies microbianas. O grupo não encontrou organismos inseguros nas amostras. A maior concentração de hormônios foi encontrada na forma in natura, o que demonstra uma perda hormonal após o processamento da placenta. Além disso, o risco de intoxicação alimentar foi considerado baixo. Agora estudo será repetido com uma amostra maior de casos.

O Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo, não soube informar quantos pedidos de placenta já atendeu, mas informou que se a mulher quiser, a placenta fica armazenada em um local refrigerado até a alta hospitalar. Já o Grupo Santa Joana, que inclui a Pró Matre, informou que a paciente pode levar a placenta para casa, mas deve fazer isso no mesmo dia do parto, pois o hospital não se responsabiliza pelo armazenamento.

Tags: DIETA E NUTRIÇÃO GRAVIDEZ PARTO SAÚDE

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